Comemorar o aniversário... Como isso pode ser bom!

por Claudia Siqueira
artigo publicado na coluna EDUCAÇÃO da Revista Circuito – fev/2010

Tenho muitas recordações das minhas festas de aniversário... Aliás, quem não se lembra com saudade de suas festas de aniversário? Reunir os amigos, cantar parabéns, comer os docinhos e o bolo. O ponche de groselha, com água com gás e frutas picadas, era a sensação!
Mas, para falar bem a verdade, o maior prazer da festa era prepará-la. Sentar à noite para fazer a lista de amigos, pensar como seriam os convites, desenhá-los um a um e pintá-los — isso era muito bom! Distribuir os convites para os amigos da rua, da escola, para os primos. Ajudar a avó e a mãe a fazer pão-de-ló, depois rechear com doce de leite, e, por fim, muito prazeirosamente, fazer a cobertura de clara de ovos batidos (à mão) com açúcar e suco de limão, colocar o creme — branco como uma nuvem — em um saquinho de leite bem lavado, com um pequeno furo feito com agulha, e desenhar no bolo todo, fazendo flores e traçados cruzados para parecer uma cesta. Enrolar os beijinhos e os brigadeiros era uma farra! A quantidade final era sempre menor do que a prevista por minha mãe. Também, quem mandava pedir ajuda de criança... Com essa combinação, criança e massa de brigadeiro, temos de convir que sempre algum ia para a barriga!
Por falar em barriga, tem ainda a parte mais legal da festa: o direito de lamber as panelas! Lembro-me de que a minha avó sempre dizia que não era para lamber a travessa da massa do bolo, pois a massa iria fermentar na barriga. Eu até imaginava aquela massa cozinhando dentro de mim, mas a vontade era maior, muito maior! Os dedos, uma destreza tamanha, se revezavam entre a travessa e a boca, numa rapidez de fazer inveja... E tinha de ser rápido mesmo, antes que elas (mãe e avó) soltassem a tão temida ordem: “Agora chega! Vai lavar as mãos!”
Travessas e tigelas amontoadas pareciam uma construção em cima da pia. O aroma de baunilha invadia os cômodos da casa e as cores das diferentes massas embelezavam ainda mais a cozinha. Quando falamos de memória, a cozinha é um espaço que sempre está presente.
No dia da festa, havia uma mesa com o bolo e os doces, e muita brincadeira com os amigos. Mas era brincar muito!
Eu me recordo que era um brincar bom, porque minha memória de um bom brincar fala de bolinhas de suor em cima do nariz e em volta da boca, nuca molhada e cabelo colado na testa. E que, de vez em quando, a mãe parava a brincadeira e, com a mão, tirava o cabelo do olho.
Engraçado... Não me lembro de presentes... Não que não existissem, até acredito que sim. Mas me recordo de pessoas, do que fazíamos e de como era especial. No dia seguinte, a festa continuava com os amigos da rua: sempre sobrava bolo que virava o lanche da tarde, acompanhado das lembranças do dia anterior.

Formas de Comemorar
A minha memória de aniversário pode ser bem diferente daquela das crianças da sociedade atual. As festas se transformaram em verdadeiros eventos, com necessidade de planejamento orçamentário! Uma festa pode custar meses de salário da família. Tem família que chega a fazer “poupança”, ou até empréstimo com esse objetivo.
Festas em casa não são mais tão frequentes. Os bufês infantis invadiram os bairros, as cidades, e vão dos mais simples aos mais sofisticados, com brinquedos eletrônicos, crianças vestidas de príncipes e princesas ou personagens da moda saindo da fumaça de gelo seco para cantar parabéns. Trocas de roupa, sempre pouco confortáveis, e brincadeiras que incitam a competição e muitas vezes ridicularizam as próprias crianças são o acontecimento.
A maioria dos pais pouco interage com os filhos nesse tipo de festa. Geralmente ficam comendo e bebendo, em um espaço diferenciado, com os amigos. Muitos desses bufês têm espaço para criança e espaço para adulto. Quem quer ficar no meio de crianças em uma festa feita para elas? Os monitores... Afinal de contas, eles são pagos para isso!
Penso que essa festa, com tanto significado, perdeu seu “toque” humanizado quando deixou de ser realizada na casa das crianças e migrou para espaços estéreis e sem identidade. É claro que estou generalizando; há alguns espaços profissionais que estão buscando alternativas mais humanizadas para atender um filão de clientes que não se adapta a bufês convencionais.

O básico de uma festa
As escolas têm um papel importante em relação a essa questão: elas podem ajudar as famílias a refletir sobre a importância da comemoração. E, mais além da celebração em si, sobre a forma de comemorar.
Temos de mostrar para as crianças que o importante é estar junto com os amigos, fazer o bolo, enfeitar a sala, cortar pedaços coloridos de papel e montar cartões com desenhos e textos que serão guardados para toda a vida! As escolas deveriam organizar uma política coerente com a sua linha filosófica para fazer estes eventos.
Famílias que optam por organizar a festa com os filhos em casa têm uma comemoração tão boa quanto aquelas que a realizam em espaços profissionais. Isto porque a questão não está no local, mas na intenção, na participação, na interação e no sentir-se parte. Afinal de contas, aniversário acontece uma vez ao ano e uma idade de cada vez. E o tempo não volta mais. Talvez não seja necessário o glamour de idades eleitas, como a de 1 ano e 15 anos ... E o que ficou pelo meio? Não deve também ser devidamente comemorado e celebrado?
Festas de aniversário são momentos mágicos e esperados. São muito importantes e farão parte da memória de infância de nossas crianças. Por esse motivo devem ser cuidadas e não banalizadas. O que as crianças querem é muito mais simples do que nós adultos podemos conceber — é estar com os amigos, brincar, ganhar gotinhas de suor pelo rosto, nas pontas do cabelo, e depois reunir todos em torno de uma mesa de qualquer tamanho, cantar parabéns com um sorriso largo no rosto e dividir o bolo com quem faz parte de sua vida! Básico, simples e possível!
Preservar essa celebração é muito importante, não só pela questão “do tamanho da comemoração”, mas principalmente pelo ritual e pelo simbolismo que a festa de aniversário traz para a criança, para sua família e também para todas as pessoas próximas, com quem ela convive.