Uma experiência transformadora
por Carlos Barmak*
Extraído do livro “BRINCAR, um baú de possibilidades”, 2009.
A experiência do trabalho é inseparável
do lugar onde este se insere.
Richard Serra
Nasci a 400 km do Rio de Janeiro, em São Paulo. Escrevo assim porque era exatamente como me sentia na infância e em parte da adolescência. Um garoto com dupla cidadania. Minha mãe, carioca da gema, casou-se com um jovem engenheiro paulista e veio morar em São Paulo no final dos anos 50.
A sensação era de que vivíamos em um bairro afastado da Zona Sul carioca. Um bairro sem praia chamado Higienópolis.
Cresci comendo feijão carioca, tomando mate gelado e ouvindo muita música, especialmente bossa nova. Viajava sempre ao Rio, aí incluídas as longas férias escolares de verão e mais um mês no inverno.
Eu era absolutamente apaixonado pela cidade. Seu clima, suas praias, o charme e o bom humor de seu povo, sua natureza, sua musicalidade e sua elegante arquitetura me deixavam tonto.
Para mim o Rio de Janeiro é que era o avesso do avesso do avesso. Como boa parte da colônia judaica, meus avós moravam na praia do Flamengo. No prédio antigo que ficava entre uma igreja e um supermercado chamado Gaio Marte, cujo logotipo era um disco voador.
Bem perto dali, ao lado do aeroporto Santos Dumont, está o MAM – Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Um museu desenhado por um gênio da arquitetura: Affonso Reidy. Dentro de um parque planejado por outro mestre do paisagismo: Burle Marx, com uma vista alucinante da baía de Guanabara, concebida sabe-se lá por quem.
O MAM do Rio no início dos anos 70 era um lugar incrível. Em plena ditadura militar era um oásis de resistência e inteligência: interessante, vivo, livre, gostoso de ir e ficar. Atraía todo tipo de público: artistas, famílias, turistas, hippies, intelectuais, namorados e profetas. Lá aconteciam ótimas exposições, o salão nacional de artes plásticas, cursos livres com importantes artistas da cidade, shows antológicos de MPB e rock, espetáculos teatrais ao ar livre... E havia uma cinemateca com uma programação fantástica de filmes. O MAM do Rio era o lugar certo para quem queria se encontrar e para quem não queria ser encontrado.
Vinte anos depois... Educativo-mam
No final de 1997, fui convidado para coordenar o setor educativo do Museu de Arte Moderna de São Paulo. No início de 1998, nascia o Educativo-mam. Nunca esqueci a experiência passada no MAM-Rio e, durante os sete anos que se seguiram, procurei tê-la como a minha principal referência.
Pensávamos o museu como um todo, um museu educativo, vivo, ativo e democrático, campo fértil para trocas e experiências significativas, um laboratório de ideias. E isso de fato aconteceu.
A equipe de educadores era formada, em sua maioria, por jovens artistas interessados em ampliar seus conhecimentos e participar daquele desafio.
Criamos programas continuados em várias frentes de trabalho: programas de visitação para escolas públicas e particulares, cursos de formação para professores, atendimento à família, cursos livres com artistas e professores de diversas áreas, programação de cinema no museu, nas escolas públicas da periferia da cidade e ao ar livre, atendimento e cursos para pessoas com deficiência física e mental, programação musical com bandas novas e músicos consagrados, música erudita e canto lírico, teatro para crianças, contadores de histórias, palestras...
Além disso, investimos muito na formação e na manutenção de uma equipe fixa de artistas educadores. Pouco a pouco, o museu foi se tornando um lugar interessante para muito mais gente. Era possível encontrar, em menos de 100 metros, artistas, poetas, amantes da arte, educadores, músicos, ufólogos, filósofos, curadores, pacientes de instituições psiquiátricas, estudantes e professores. As conexões, as pontes invisíveis, foram se formando espontaneamente.
Em vários momentos senti a mesma excitação de quando era adolescente no MAM do Rio de Janeiro. O museu fora contaminado por um clima especial, potente e regenerador.
Isso é arte?
A maior parte das obras do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo é de arte contemporânea e a maior parte das obras do acervo do Museu de Arte Contemporânea da USP é de arte moderna.
Tive sorte, pois essa inversão maluca me deu a possibilidade de trabalhar com o que mais gosto: educação e arte contemporânea.
Os visitantes perguntavam: um turista fotografando a Monalisa com seu telefone celular... uma mulher com enormes seios de silicone... um homem com o bigode sujo de creme de chantili... uma galinha solta nos corredores de um Shopping Center... uma ilha embrulhada com tecido cor-de-rosa... um ideograma chinês tatuado na nuca de uma secretária... um desenho feito com calda de chocolate... um tubarão partido ao meio na sala principal de um museu... um andar completamente vazio em uma bienal internacional... Isso é arte?
Respondíamos que o artista contemporâneo nos coloca diante das metáforas e das complexidades do nosso tempo. Nós vivemos o mito da caverna de Platão no aqui e no agora. As crianças e os jovens adoravam as exposições e as propostas mais radicais, já os adultos... tinham muita resistência. Esta aparecia de forma variada, da mais agressiva e direta à mais sofisticada e dissimulada. Percebíamos no público adulto pouco conhecimento sobre história da arte e uma grande dificuldade de relacionar aquelas estranhas obras com sua vida.
Exatamente como em outros momentos da história da humanidade, não tardavam comentários do tipo: como podem chamar isso de arte? Qualquer um pode fazer algo assim!
Normalmente a apreciação de uma obra de arte contemporânea não se dá de forma passiva. O que acontece é um verdadeiro enfrentamento, que pode se tornar mais complicado quando se parte de uma visão modernista ou mesmo quando a qualidade técnica da obra ou a habilidade do artista são considerados em primeiro lugar.
Cursos de formação para educadores
Era necessário refletir sobre a passagem do modernismo para a contemporaneidade. Para isso era fundamental iniciarmos cursos de formação em arte contemporânea, a fim de lapidar o pensamento e estimular a troca de informações.
Conseguimos o apoio da Secretaria Estadual de Educação e criamos dois cursos: “Contatos com a Arte” e “Encontros com a Arte”. Professores de diferentes lugares começaram a nos procurar com mais frequência e os cursos tiveram suas vagas preenchidas rapidamente, revelando um grande interesse dos educadores por novos conhecimentos.
A ideia era fazer e pensar arte: provocar conversas e debates, criar e planejar atividades investigativas, elaborar hipóte ses, estabelecer relações, comparar diferentes pontos de vista e construir um pensamento sobre arte que pudesse ser generalizado para outras exposições.
Esses encontros eram muito poderosos e estimulavam os professores a relacionar os conteúdos de suas disciplinas com as obras das exposições. Queríamos que essas experiências fossem transformadas em novas ideias pelos educadores em suas escolas de origem e que os alunos voltassem ao museu sozinhos ou na companhia de amigos e familiares.
Quando os educadores participavam dos cursos de formação, a qualidade da visita com seus alunos era nitidamente melhor.
As crianças
A criança era o nosso público principal. A cada exposição, planejávamos atividades que lhes permitissem dançar, desenhar, cortar, colar, fazer poesia, cantar, fazer vídeo, fotografia, performances, instalações, enfim, atividades que favoreciam diferentes relações com a arte.
Batizamos o ateliê do museu de “Chico Science”, em homenagem ao genial músico pernambucano. Nele, como nas músicas do Chico, trabalhávamos com várias misturas, buscando aproximar diferentes linguagens. As atividades dialogavam com as obras das exposições e podiam acontecer dentro ou fora do museu.
O trajeto entre a escola e o museu também era importante. O espaço de aprendizagem podia ser alargado para toda a cidade. No percurso as crianças tinham condições de perceber os marcos mais importantes de mudança na paisagem, desenhar em transparências colocadas nas janelas dos ônibus, tirar fotos com os olhos para revelá-las no museu.
Às vezes uma pergunta disparava a atividade: que forma o gosto tem?, vamos dançar um quadro?, vamos pintar os sons?, vamos embrulhar a professora?, vamos enviar um desenho via fax para o rei da Bélgica? As crianças respondiam aos desafios com muito entusiasmo.
Assim como no processo de trabalho de vários artistas contemporâneos, as atividades tinham um foco investigativo, promoviam situações de aprendizagem das quais as crianças participavam como verdadeiros pesquisadores, construíam sentidos descobrindo as relações entre a arte e sua vida, tornando-se assim autores de suas próprias descobertas.
É incrível perceber como essa experiência foi transformadora e até decisiva na vida de tanta gente, além de ter gerado benefícios para tantas outras.
O Educativo-mam não era uma extensão da academia e também não era um parque de diversões. Primávamos pela qualidade em nossas ações e escolhas, mas para garanti-las era necessário respeitar nossos limites. Jamais abri mão disso.
* artista plástico, artista gráfico, ilustrador, compositor e educador.