Impressões infantis? Ou reflexões de gente grande sobre o processo educativo?
por Claudia Siqueira
artigo publicado na coluna EDUCAÇÃO da Revista Circuito – maio/2010
“— Olá, crianças! Vim à pré-escola para contar uma história para vocês!
A turma respondeu em coro:
— Aqui não é pré-escola, é uma escola!
— E qual é a diferença?
Murilo diz:
— Pré-escola é uma escola de milhares de anos atrás!”
Ao descrever “pré-escola” como “uma escola de muitos e muitos anos atrás”, Murilo, do topo de seus seis anos, com total inocência e extrema sabedoria, define com clareza o que muitos pais, e mesmo educadores, têm dificuldade em perceber e assimilar. Expressões como “Vai brincar com a tia!”, ou “Senta aqui para fazer o trabalhinho...” ainda fazem parte do universo escolar infantil.
A questão é que a criança precisa que sua vivência na Educação Infantil (é assim que devemos nos referir a esta fase da vida escolar) funcione como um “escancarador de janelas”: as crianças estão ávidas para se apropriar do mundo e a escola é a grande potencializadora desta apropriação.
O espaço escolar deve ser organizado de forma a atender as especificidades da infância — banheiros adequados, salas com espaços diferenciados e áreas externas organizadas para que a criança possa explorar o mundo e se apropriar dele.
O “aprender pela experiência” é um fator que precisa ser considerado neste momento da vida escolar de nossas crianças. A curiosidade infantil tem que ser potencializada na escola. Afinal, é a idade dos porquês: “Mãe, por que você usa óculos?”; “Pai, como foi que eu nasci?”; “Vó, por que seu cabelo é branco?”; “Professora, por que ele é maior que eu?”. Assim, propor muita, mas muita, exploração é o caminho para uma aprendizagem significativa, que permitirá a nossas crianças experiências únicas.
Proporcionar contato com a natureza e com a cultura local, desestimular o consumismo e investir na simplicidade e nos assim chamados “brinquedos não estruturados”, são formas efetivas de construir uma escola que valorize a infância e que não seja “de muitos e muitos anos atrás...”, como muito bem definiu o pequeno Murilo.
Investir em estudo, na formação continuada da equipe, em tempo para documentar os processos educativos e refletir sobre as formas de aprender e ensinar são formas de tornar um espaço respeitado e com credibilidade. Afinal, uma escola que investe na formação e na reflexão sobre o ato de educar pode fazer de uma “pré-escola”, uma “escola de Educação Infantil”.
Melhorar o nível de conhecimento dos pais sobre este momento da vida de seus filhos, e sobre os benefícios que a parceria com a escola pode proporcionar, é fundamental, pois a família precisa estabelecer uma relação de confiança com o espaço que escolheu para educá-los.
Tornar-se uma escola diferenciada, voltada para potencializar a infância e desenvolver uma escuta genuína das necessidades da criança, acolher as ansiedades dos pais e investir na formação da equipe é o que torna uma “pré-escola” uma “escola de Educação Infantil”.
Murilo sabe o que diz. Fala de uma escola que desejamos ver cada vez mais acessível para nossas crianças. Fala de uma escola que ajuda crianças a se apropriarem do mundo, a viver intensamente, a experimentar, a vivenciar valores, a fazer amigos e a ter boas lembranças.
Concretizar esta escola é um ato de coragem, determinação e muito estudo, já que deixar de ser uma “pré-escola” significa, muitas vezes, abandonar a zona de conforto para investir na investigação dos processos educativos com maior propriedade.
Uma pista da tendência por esta escolha é o numero crescente de educadores que participam de cursos e palestras sobre infância, documentação pedagógica, sobre o espaço educador e o brincar, entre outros temas relacionados ao universo infantil.
É sempre bom termos por perto meninos como o Murilo, que nos ajudam a vislumbrar e a concretizar uma escola melhor.
Assim, escolas e famílias: ouçam verdadeiramente as crianças. Elas nos dão muitas dicas de como se relacionam com o mundo. Cabe a nós ajudá-las a tornar esta interação mais efetiva e de melhor qualidade.